.
.
Rua D. Álvaro Abranches da Câmara Nº 28.
Neste local, na fachada do Nº 28, de um e de outro
lado da porta de entrada, podem observar-se curiosos
fósseis de conchas de
bivalves do género Exogyra, seccionados segundo várias
orientações.
Os
fósseis
destes
bivalves, com
dimensões rondando os 5 a 15 cm, são
bastante evidentes devido ao aspecto espesso e estratificado, isto é,
organizado em camadas, da parede das
suas
conchas e ao facto de
apresentarem cor acinzentada que se destaca
bem no fundo da rocha calcária de cor ocre escura.

Vários fósseis de Exogyra, em várias
secções, na fachada do Nº 28.
.
A rocha ornamental à qual estes fósseis
estão associados - um calcário fossilífero de idade
cretácica - é, muito
provavelmente, proveniente do distrito de Lisboa, da região de Sintra -
Loures.
Fósseis de Exogyra:
As Exogyra eram bivalves. Os bivalves (Classe
Bivalvia), por vezes
conhecidos pelo nome vulgar de "conchas", são organismos do grupo dos
moluscos (Filo
Molusca). São moluscos
que apresentam o seu corpo mole encerrado dentro de uma concha externa,
calcária, constituída por duas peças articuladas, as valvas. Daí o seu
nome: bivalves.
Os
bivalves são organismos
que nos são muito familiares. As amêijoas, os berbigões e as lambujinhas,
para referir apenas alguns dos mais conhecidos, são bivalves.
As Exogyra pertencem a um outro grupo de
bivalves bem conhecido, o das ostras. Exogyra é um género de
ostras extinto, que existiu apenas durante o Período
Cretácico, há cerca de
146 a 65 milhões de anos atrás, já não existindo na actualidade.

Comparação de uma concha de ostra actual com
um fóssil, em corte, de Exogyra. No corte do fóssil de Exogyra:
1 - Valva direita; 2 - Valva esquerda.
.
Imagem de ostra actual de:
http://www.utilitarianism.com/oyster.jpg
Imagem de fóssil, 3D, de Exogyra de
http://fossils.valdosta.edu/fossil_pages/fossils_cre/i87.html
Devido à forma algo invulgar da concha de Exogyra,
com uma valva espessa, côncava e um pouco espiralada (a esquerda) e com
outra mais pequena e aplanada (a direita), e à variedade de cortes
observáveis, as secções dos fósseis existentes na fachada do Nº 28
apresentam aspectos muito distintos. Contudo, nalgumas delas, como
mostrado na figura acima, é possível reconhecer, claramente, as duas
valvas (1 - valva direita e 2 - valva esquerda) que constituíam a concha
destes organismos.
As Exogyra eram organismos aquáticos, marinhos
a estuarinos, e viviam em águas pouco profundas, em ambientes próximos
da costa. Viviam, pelo menos parte da sua vida, fixadas ao substrato, ao
fundo, tal como as ostras actuais. No grupos das ostras, a fixação ao
substrato é assegurada pela valva esquerda, a mais espessa.
Outros fósseis na fachada do Nº 28:
Para além dos
somatofósseis de
Exogyra, ou seja dos fósseis de partes da concha -- do corpo
biomineralizado -- dos bivalves, na fachada do Nº 28 são visíveis,
também,
icnofósseis de outros
organismos.
Enquanto os somatofósseis são fósseis de partes dos
organismos, os icnofósseis são fósseis dos vestígios de actividade
orgânica.
Sobre os fósseis de Exogyra observam-se,
claramente, fósseis de marcar e de perfurações produzidas por organismos
que viviam associados a estes bivalves.

Icnofósseis sobre somatofóssil de valva
esquerda de Exogyra: 1 - Perfuração de bivalve, de tipo
Gastrochaenolites; 2 - perfurações de esponjas, de tipo
Entobia.
.
Imagem de Petricola adaptada de
http://www.thais.it/conchiglie/mediterraneo/indici/ind_15.htm
As perfurações maiores, com secção oval (assinalado
por 1), visíveis na foto acima, foram produzidas por bivalves
perfurantes, enquanto as mais pequenas, dando um aspecto rendilhado à
periferia da concha (em 2), foram produzidas
por esponjas. A este tipo de estruturas, afectando substrato duro (rocha
ou, neste caso, as conchas de Exogyra), perfurando-o, é dado o nome de
estruturas de bioerosão.
Exogyra? Isso para mim é grego! Os bivalves incluídos
neste género apresentavam uma valva -- a esquerda, a mais espessa --
ligeiramente espiralada, parecendo "enrolar para fora", daí o nome
Exogyra (de éxo, para fora, e gyrós, círculo, rotação, em grego),
que siginifica "enrolado ou rodado para fora".
Outros fósseis de bivalves:
Outro grupo de bivalves, também extinto, amplamente
representado sob a forma de fósseis nas fachadas da Rua Capitão Leitão
-- e não só -- é o grupo dos rudistas. Ao longo desta rua de Almada
podem encontrar-se excelentes fósseis de dois tipos de rudistas:
caprinídeos e
radiolitídeos.
Dúvidas?! Pergunta ao paleontólogo!
Mesmo depois de teres lido as explicações dadas acima e de teres observado
os fósseis no local, ainda tens dúvidas sobre fósseis? Então envia-me as tuas questões (clica
aqui!) e
eu tentarei
esclarecê-las.
Paleontologia e fósseis na Internet
Sebenta da
Paleontologia do GeoFCUL - Bivalves
Paleontologia no
Departamento de Geologia da FCUL
Museu de História Natural da Universidade de
Lisboa
Introducción a la
Paleontología
Palaeobase. Database
of fossils
Carlos Marques da Silva - Almada, 16 de Novembro de
2008
|